O mito de Perséfone na terapia
- Fernanda Mesquita

- 6 de dez. de 2023
- 4 min de leitura
Atualizado: há 3 dias

Mitologia e terapia podem parecer dois temas sem relação alguma à primeira vista. No entanto, na abordagem junguiana, descobrimos uma conexão surpreendente entre esses dois campos, explorando os mitos como ferramentas valiosas na prática clínica desde que Jung reconheceu a riqueza simbólica universal dos arquétipos nas diversas mitologias culturais. Recentemente, a palavra "arquétipo" ganhou popularidade, embora seu uso comum nem sempre reflita sua essência. Segundo a Psicologia Analítica, um arquétipo não é algo que podemos simplesmente "ativar", como é dito no senso comum. Neste texto, vamos explorar o porquê disso, desvendando a verdadeira natureza dos arquétipos e como o mito de Perséfone pode ecoar profundamente em sua vida e, consequentemente, na jornada terapêutica.
Antes de tudo, é crucial esclarecer o significado dos arquétipos para combater a desinformação que frequentemente cerca esse tema. Tentarei explicar de maneira simples e acessível: imagine que em todos nós existe algo onde guardamos conteúdos herdados e inatos compartilhados por todos os seres humanos, informações às quais não temos fácil acesso na consciência. Os arquétipos são como uma forma para a qual preenchemos com imagens e símbolos a partir da nossa vivência pessoal. Imagine o arquétipo da Grande Mãe, alguns podem pensar em uma deusa, na própria mãe, na natureza... Mas o arquétipo mesmo nós não temos acesso. Devido à dificuldade de acesso direto, não é possível escolher racionalmente "ativar" um arquétipo.
Um exemplo de arquétipo é o do herói salvador que confronta a morte, adentra o submundo e emerge renovado e fortalecido. Observamos esse padrão na história de Hércules na Mitologia Grega, em Jesus no Cristianismo, e até mesmo na cultura popular, como no momento em que Harry Potter permite que Voldemort o mate. Vale ressaltar que um mito não deve ser compreendido como sinônimo de uma mentira; ele representa a narrativa cultural de um povo, refletindo, por conseguinte, a maneira como esse grupo se comporta. A validade dada a essa história é de caráter pessoal.
Mas como o conhecimento de um mito pode contribuir para a sua vida? Como mencionado anteriormente, essas imagens estão profundamente enraizadas em nós, e inadvertidamente podemos estar reproduzindo padrões comportamentais associados a esses arquétipos. Você já conheceu alguém que parecia se identificar com o arquétipo da criança eterna? Ou, pelo contrário, alguém que agia como se fosse muito mais velho do que realmente era? Também encontramos a figura do trickster, alguém que está sempre brincando mesmo em situações sérias, e a mulher sábia e intuitiva que percebe tudo tão rapidamente que parece realizar "bruxaria".
É como se estivéssemos cercados por personagens de histórias, ou mesmo nós mesmos nos identificássemos com esses personagens. Saber qual imagem arquetípica está por trás do nosso comportamento torna muito mais fácil compreendê-lo. Podemos entender por que ele ocorre, os aspectos positivos e negativos daquele "personagem", e até prever as consequências desse comportamento ao conhecer o desfecho que esse arquétipo teve no mito. Ao olhar com as lentes certas, percebemos uma sabedoria ancestral muito rica por trás de cada história, e é aí que entra o terapeuta junguiano.
Um dia, a doce e ingênua Coré, filha de Deméter (deusa da agricultura), estava colhendo flores de narciso na beira de um abismo, até que dele saiu Hades (deus do submundo) e a raptou para torná-la sua esposa em seu domínio. Deméter, desesperada para encontrar sua filha, procurou em todos os cantos do mundo, mas não a achou. Enquanto isso, tornou o mundo infértil, secaram todas as plantações e com isso veio a fome. Em acordo com Zeus para que a situação voltasse ao normal, ele estabeleceu que ajudaria a encontrar Coré com a condição de que ela não comesse nada no submundo.
Coré foi encontrada, mas havia já consumido algumas sementes de Romã em meio ao seu pesar, tornando sua ligação com o submundo eterna. Por causa disso, Coré foi obrigada a passar metade de seu ano na superfície com a mãe e metade junto a seu marido Hades, tornando-se Perséfone, rainha do submundo. Com o ciclo de Perséfone, passamos a ter as estações do ano, nas quais no outono e inverno passa com seu marido e há um período de seca, mas na primavera e verão retorna com sua sabedoria vinda do mundo inferior e nos abençoa com um período de grande fertilidade.
Todos nós começamos nossas vidas envolvidos numa inocente fantasia, acreditando que o mundo é seguro e que estamos protegidos. No entanto, vem o inesperado Hades e nos sequestra da ilusão. Esse rapto simboliza os traumas que, cedo ou tarde, surgem em nossas vidas. Sonhos são frustrados, pessoas próximas se vão, e enquanto vivemos, experimentamos uma montanha-russa entre a alegria e a dor. Ninguém escolhe o sofrimento, mas ele chega para todos nós, sendo parte necessária do amadurecimento. Enquanto permanecemos inocentes, estamos despreparados para a realidade que nos espera.
Às vezes, especialmente no ocidente, buscamos apenas o lado positivo da vida de maneira tão intensa que ficamos incapazes de viver para além de um bem-estar falso e superficial. Empurramos os problemas para debaixo do tapete, ou melhor, para dentro do abismo, até que de lá emerge uma criatura que nos engole, nos obrigando a enfrentar o conteúdo que não estamos prontos para lidar.
Esse mito ilustra de maneira clara o processo terapêutico, no qual o paciente chega ao consultório com seus traumas e, junto ao terapeuta, inicia um caminho para ressignificar o rapto sofrido. Mesmo que não possamos evitar a realidade ou voltar ao estado de inocência antes do sequestro de Hades, somos capazes de controlar nossas reações, assim como Perséfone, que deixou de ser vítima para assumir o controle de seu destino. A primeira descida ao Hades não é fácil, mas a cada repetição, torna-se menos íngreme e dolorosa. Aprendemos a ser mais resilientes e cultivamos qualidades como valorizar a vida e empatia pela dor alheia.
O ciclo anual representa o equilíbrio que devemos buscar entre luz e escuridão, tristeza e felicidade. Pressionar para estar sempre alegre e satisfeito não é saudável; permitir-se sofrer em alguns momentos pode ser aliviador e proporcionar uma oportunidade de expandir a consciência, adquirindo sabedoria. Tornar-se Perséfone é tornar-se governante do próprio destino.
Fonte: Arquétipos da Sombra - Uma Jornada de Aceitação e Transformação Pessoal Por Meio dos Mitos Gregos do Submundo, Dra. Joanna LaPrade, 2023, Editora Cultrix



